Case

O que Nova York ensina sobre IA no serviço público

Mais de US$ 100 milhões e quatro anos depois, o “one-stop shop” digital de Nova York ainda manda o cidadão para vários sites. A auditoria mostra por quê.

Paulo Brandão · 29 set 2026 · 6 min de leitura

Em 2022, a Prefeitura de Nova York anunciou o MyCity: um portal único onde qualquer morador poderia buscar e pedir benefícios, serviços e vagas de emprego, tudo em um só lugar. A promessa era simplificar pedidos, reaproveitar os dados do cidadão entre órgãos e recomendar benefícios de forma automática, com apoio de inteligência artificial.

Em dezembro de 2025, a Controladoria da cidade publicou uma auditoria sobre o projeto. Recomendamos a leitura completa. Aqui resumimos o que ela revela.

Os números

US$ 100 mi+gastos em mais de 120 contratos, com cerca de 50 fornecedores
46%dos 140.760 pedidos de creche eram de famílias inelegíveis
7/100nota de desempenho da página de creches no celular
71%das avaliações do chatbot com IA foram negativas
  • Para 2026, a prefeitura pediu mais US$ 81 milhões.
  • Quatro anos depois, o cidadão ainda não consegue pedir todos os serviços em um único formulário. Em boa parte das áreas, o portal apenas redireciona para os sites antigos de cada órgão.
  • O sistema de creches não avisava a família sobre a inelegibilidade antes do envio.
  • O chatbot, lançado em 2023, continua em fase de testes. A prefeitura declarava mais de 95% de precisão; a auditoria mediu entre 84,8% e 92,7%. Algumas funções levavam mais de 24 segundos para carregar, quando o padrão da própria cidade é 3.

O que deu errado

1. A IA veio antes do processo. O chatbot foi colocado sobre uma operação fragmentada, com sistemas que não conversam entre si. A IA não junta o que o processo mantém separado. Ela só deixa a fragmentação com cara de moderna.

2. Fachada nova sobre sistemas antigos. Parte do "novo sistema" é um conjunto de links para portais que já existiam, alguns criados em 2006. É um padrão comum de baixa maturidade: digitalizar ou reempacotar interfaces sem redesenhar os processos centrais.

3. Nenhum plano verificável. A consultoria contratada para planejar o projeto deveria entregar roteiro, planos detalhados e estimativas de custo. A auditoria não encontrou nenhum desses documentos. Também não havia descrição do estado atual e do estado desejado, nem marcos de prazo e custo.

4. Indicadores que não mediam o que importa. Ninguém acompanhava a taxa de pedidos inelegíveis nem o tempo de resposta do sistema. A precisão declarada do chatbot não batia com a medida pelos auditores. E o site anunciava um recurso de acompanhamento do desempenho dos órgãos que, segundo a própria equipe, não existe.

O outro lado

O órgão de tecnologia da prefeitura discordou das sete recomendações. Argumentou que a auditoria aplicou um modelo rígido de gestão de projetos e simplificou o conceito de "one-stop shop". Vale ler os dois lados. Mesmo assim, a falta de documentos básicos de planejamento e de indicadores é difícil de contestar.

O que isso tem a ver com a sua cidade

O MyCity não é exceção. Prefeituras brasileiras estão sendo abordadas com chatbots, assistentes de IA e "portais únicos". A pergunta certa não é qual IA usar. É esta:

O processo que a IA vai atender está mapeado, tem dono, dados confiáveis e indicadores?

Se a resposta for não, a IA vai repetir o problema, só que mais rápido e mais caro.

As sete recomendações da auditoria servem como checklist para qualquer gestor:

  1. Estudar a viabilidade técnica, econômica, legal e operacional.
  2. Ter um plano com requisitos, prazos e custos.
  3. Montar uma equipe de gestão com papéis definidos.
  4. Cobrar entregas, prazos e orçamento dos fornecedores.
  5. Avisar o cidadão antes que ele envie um pedido que será negado.
  6. Cumprir padrões mínimos de desempenho antes de publicar.
  7. Testar a IA de forma estruturada antes de liberar ao público.
Leitura recomendada Audit Report on the NYC Office of Technology and Innovation's MyCity System → Controladoria de Nova York (NYC Comptroller), auditoria IT25PAR20028, dezembro de 2025. Em inglês.
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